Benjamin dedicou vários estudos à história da produção e reprodução do material artístico. Um dos principais é A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica. Atenho-me aqui a apenas algumas das inúmeras questões que este magnífico e controverso texto suscita. As controvérsias se devem sobretudo a uma possível ortodoxia marxista, presente não só nesse mas em outros ensaios da primeira metade dos anos trinta. Esta ortodoxia, representada por um excessivo apego às potencialidades progressitas da técnica, seria tributária da influência de Brecht, ou da simpatia pela então União Soviética, oposição visível ao avanço do fascismo na Europa.
De fato há no texto um espírito simpático à técnica e suas possibilidades de reprodução, que configurariam a arte novas formas de representação. Por outro lado permanece a crítica à fetichização da técnica, que já fora feita na década de vinte. A meu ver, muito mais notável nesse ensaio é a ênfase na exigência de politização da arte e de seus produtores, como crítica e resistência ao fascismo e suas formas de manifestação estética. Muito mais que em qualquer outro, esse é o ponto que aproxima Benjamin de Brecht, e de resto, ao marxismo “mais militante”. Voltarei a esse ponto quando da discussão do caráter engajado do cinema e da arte em geral em Benjamin e Brecht.
Se a resistência soviética acabou por tornar-se ilusória com o tratado de não agressão assinado por Hitler e Stalin em 1939, que possibilitou a invasão da Polônia e o início da II Guerra, não seria justo dizer que Benjamin tivesse, na metade dos anos trinta, uma visão ingênua do marxismo tornado ideologia de Estado. Prova disso são as anotações críticas do Diário de Moscou, e o fato de Benjamin jamais ter-se filiado ao partido comunista.
O ensaio foi escrito para ser publicado na Revista de Pesquisa Social, a cargo de Max Horkheimer, diretor do Instituto de mesmo nome já sediado em Nova York, do qual Benjamin se tornara bolsista. Nele é curioso, mas de forma nenhuma inusitado, o aparecimento do esporte como exemplar, fenômeno que interessa à arqueologia de uma modernidade e suas expressões: à direita, com o fascismo, à esquerda, com o comunismo, ambos enredados com as novas condições técnicas de reprodução, inclusive e principalmente do material artístico.
Essas novas técnicas de reprodução alteram sobremaneira o caráter da obra de arte. Se de alguma forma a obra de arte sempre foi reprodutível, o fato é que a cópia já não é vista como imperfeição ou falsidade, como postulara a tradição platônica. A possibilidade de reproduzir indefinidamente uma obra – processo que começara com a xilogravura e atingira seu ápice com o cinema – torna obsoleta a idéia de cópia. “A obra de arte reproduzida é, em escala crescente, a reprodução de uma obra de arte construída para ser reproduzida.”
A mudança qualitativa pela qual passa a obra de arte pode, talvez, ser assim resumida: em suas condições materiais e técnicas modernas, a arte pede duas características que lhe foram essenciais: distanciamento e unicidade. Secularizada, e portanto emancipada de seu valor de culto, a arte aproxima-se dos espectadores, ao mesmo tempo que passa a ser reproduzida com freqüência e exatidão cada vez maiores. Aumenta-lhe, portanto, o valor de exposição. A obra de arte vê perder-se sua aura, essa [...]teia singular de espaço e tempo: uma manifestação única de algo distante, tão perto quanto possa estar.” Altera-se com isso o movimento histórico dentro de uma tradição, que agora diz, ao contrário dos gregos, que os valores estéticos já não são eternos. Ao mesmo tempo que se seculariza, ela se politiza, de forma que o fenômeno das multidões pode, logo a após surgir na cena moderna, ver a si mesmo na tela: comícios, guerras e grandes espetáculos esportivos.
Não é sem enormes conseqüências que se desenvolve esse processo. Por um lado a própria percepção humana (historicamente condicionada), sofre inúmeras modificações. As imagens captadas pela câmara e depois remontadas em um nexo de cortes e choques (o que significaria de fato a construção da obra cinematográfica) corresponderiam ao ritmo da cidade moderna, onde os sentidos são aguçados pelas novas configurações de espaço e tempo, tal como se lê nos ensaios sobre Baudelaire. “O cinema é a arte correspondente aos mais agudos perigos de vida que hoje vivem os contemporâneos.” Se a forma reprodutível da obra de arte é, por excelência, o cinema, é porque nele se constrói a relação estética entre o aparato técnico e o ser humano. Para Benjamin, claramente apoiado em Bertold Brecht, trata-se de entender o desempenho do ator (e das massas) diante das câmaras como um teste – alternativo em relação ao trabalho automatizado – para aferir o rendimento frente ao maquinário.
Fica para um outro momento uma questão: que destino terá encontrado o otimismo de Benjamin – e de Brecht! – sobre o caráter revolucionário do cinema. O debate é extenso mas adianto que, de minha parte, prefiro ser cauteloso quanto a um certo realismo socialista. Digo isso porque tanto a direita quanto a esquerda, o esporte, símbolo da idéia de progresso infinito corporificado em medidas de tempo e espaço, passa a ser tema e objeto da produção cinematográfica. Seja numa perspectiva comunista, com Brecht, seja sob o prisma do fascismo, com Leni Riefensthal, mas sempre louvando o esporte e as performances humanas, não é surpreendente essa preferência. Ora, o cinema – como imagem em movimento que exclui e inclui, potencializa o olho humano, que educa os sentidos para a experiência moderna, como afirma Benjamin – não poderia prescindir do movimento corporal como um de seus privilegiados temas. Enquanto o esporte trabalha com a idéia de precisão do tempo e do espaço, o cinema relativiza-os. À potencialização do corpo corresponde a potencialização da imagem.
Fonte: Diponível em http://www.efdeportes.com/efd26a/benjam.htm.